Por Cintia Salomão

O agronegócio responde por 26,6% do PIB brasileiro e se expandiu de maneira recorde em 2020, em pleno ano da pandemia. O setor, no entanto, continua enfrentando enormes desafios ambientais, proporcionais ao seu gigantismo. Administrar o estresse hídrico, com altas quantidades de água usadas na irrigação agrícola, e reduzir o uso de herbicidas estão entre esses desafios. Soluções tecnológicas da chamada deep tech — como são conhecidas as tecnologias complexas ou que levam à resolução de problemas de alto impacto — têm mostrado que podem ajudar as empresas do agro a tornarem seus processos em campo mais eficazes e menos prejudiciais ao meio ambiente.

DESAFIO

O manejo eficiente de plantas daninhas está entre as operações mais custosas de uma usina de açúcar. O processo de pulverização envolve uso maciço de combustível, o que implica a emissão constante de gás carbônico em campo. Além disso, a dificuldade de identificação das espécies diversas de plantas exige o uso de diferentes herbicidas. No caso específico da planta da cana-de-açúcar (Saccharumofficinarum), a erva daninha ocupa um espaço considerável do vegetal, derrubando bastante a produtividade das companhias açucareiras.

A Cromai, nascida em 2017, entrou nesse mercado, oferecendo uma solução que permitisse mais eficiência em um processo tão custoso. Ao mesmo tempo, era preciso demover a resistência de técnicas tão tradicionais e arraigadas de pulverização do agronegócio brasileiro. Conversamos com o CEO e cofundador da startup, o engenheiro mecatrônico Guilherme Castro, graduado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), para saber os detalhes sobre esse desafio vencido por meio de uma tecnologia 100% nacional.

“Nossa tecnologia permite reduzir em 66% o consumo do combustível usado na pulverização, além de uma economia de 35 mil litros de água nesse processo a cada 1.000 hectares”

Guilherme Castro, engenheiro mecatrônico e CEO da startup Cromai

SOLUÇÃO

As usinas já obtinham suas próprias imagens da plantação através do emprego de drones. O diferencial da startup sediada na capital paulista foi desenvolver um software para processar todas as imagens aéreas por meio da inteligência artificial. Guilherme Castro e seu sócio identificaram uma oportunidade de usar a inteligência artificial por meio de imagens para gerar informações que possibilitassem ações mais eficientes em campo.

“Nossa ferramenta detecta as imagens das plantas daninhas, inclusive quando ainda estão começando a surgir, além de classificar as espécies às quais pertencem. Chegamos a fazer uma estimativa sobre quantos funcionários seriam necessários para processar a imagem como é analisada pelo nosso software. Cem pessoas deveriam analisar as imagens até chegar ao nível de detecção da nossa solução”, precisa o empresário.

As imagens são levadas para o computador de uma das usinas de um grupo que está entre as top 10 do país no setor de usina de açúcar, cliente da startup. No computador, é montado uma espécie de mosaico da fazenda, o que leva algumas horas. Em cerca de 30 minutos, o software gera o chamado “arquivo de pulverização localizada”. Ali estão todos os arquivos necessários para serem plugados junto ao programa de pulverização. Dessa forma, no momento da pulverização, realizada com tratores ou drones, a aplicação será feita somente sobre aquele tipo de erva daninha.

“O resultado é que o pessoal de trato pode usar o herbicida correto para determinado herbicida especificamente. Não precisarão usar vários tipos de herbicidas, como era feito antigamente, gerando alto custo, ainda mais em áreas grandes”, acrescenta o empreendedor, que cresceu em uma família de agrônomos do interior paulista.

A implantação em campo da solução, envolvendo várias pessoas de áreas diferentes, também fez parte desse desafio. Apesar de ser simples de usar e ter um impacto grande, a adoção da tecnologia envolve várias áreas dentro de uma usina de açúcar.

“Foi necessária uma considerável articulação interna para colocar em prática o desenho de um novo processo. Diversas pessoas foram envolvidas, como o pessoal de tecnologia, de tratos agrícolas, de inovação, a gerência e a diretoria. Trouxemos um novo padrão de manejo. Sabíamos que haveria um grande resultado, mas não sem o desafio da implantação”, resume o CEO.

A empresa decidiu adotar a solução nas outras duas usinas do grupo e contratou inclusive um funcionário específico para fazer a gestão desse manejo. A Cromai atualmente atende usinas de açúcar — espalhadas pelos estados de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás — com suas soluçõese pretende abrir novos mercados no setor da soja.

Com o recente aporte recebido de R$ 5 milhões, a Cromai planeja se lançar no mercado internacional com sua experiênciapara o agronegócio, classificada como deep tech.

“Esse último aporte vai permitir nossa internacionalização. De fato, queremos começar em breve nossa jornada internacional. Recebemos investimentos menores do que as empresas estrangeiras concorrentes receberam quando chegaram ao Brasil, o que para nós é motivo de orgulho. Nossa tecnologia é totalmente desenvolvida no país”, orgulha-se o CEO, que fez mestrado na Alemanha em inteligência artificial e doutorado em engenharia da computação na USP.

RESULTADOS

– Redução de 65% do uso de herbicidas em plantações de cana-de-açúcar.

– Redução de 66% do tempo de operação de pulverização.

– Otimização do processo de pulverização. Enquanto o método tradicional leva em média três dias, o software da Cromai permite que seja feito em apenas um dia.

– Economia no consumo em torno de 66% do combustível usado na pulverização.

– Impacto ambiental positivo, com a redução da emissão de gás carbônico em 66% e a economia de 35 mil litros de água no processo de pulverização a cada 1.000 hectares. A quantidade de água economizada é suficiente para abastecer uma família durante dois meses.

– A Cromai foi incluída entre as cinco startups brasileiras de maior potencial no país durante a Brazil Conference de 2018, organizada em Boston, além de ter sido selecionada para o Santander X Environmental Challenge como uma das empresas que podem exercer impacto ambiental no mundo.